O tempo certo de florescer

Neste ano de 2006, nossa filha autista completará 15 anos de idade. Geralmente, para as meninas, essa idade é um divisor de águas, um marco em que se passa de menina para moça. A tradição faz com que a festa de 15 anos, ou o baile de debutantes, seja o momento em que os pais apresentam suas filhas para a sociedade.

Atualmente, as festas de 15 anos ainda continuam sendo um evento social e são planejadas com muito cuidado e carinho, seguindo algumas etapas comuns, como o book de fotos antes da festa, o vestido longo e rodado estilo princesa, a valsa, o baile com DJ, as lembrancinhas, a mesa e o bolo com a decoração característica dos 15 anos.

Nossa filha mais velha passou por todo esse processo e hoje temos, para recordar, o vídeo, as fotos do book e o álbum da festa. Até dois anos atrás, eu achava muito pouco provável ver minha pequena autista em um evento social de tal magnitude. Porém, no ano passado, com 14 anos, ao ver os registros da festa de da mana, ela nos indagou perguntando onde estava o seu álbum.

Na hora, fiquei surpresa e feliz ao mesmo tempo e perguntei com bastante clareza:
— Você quer uma festa de 15 anos igual à festa da mana? Ela respondeu de imediato: sim! E fui questionando sobre a cor do vestido, a cor da festa, se queria música, brinquedos, valsa… enfim, fui investigando o que ela mais queria.

Depois dessa conversa, ela não desistiu da ideia. Várias vezes, confirmava conosco: “a festa de 15 anos vai ser dia […]”. Essa atitude nos fez perceber o desejo real dela de ter a festa.

Tomamos o cuidado de entender exatamente o que ela de fato queria e, pasmem, ela quis quase tudo, inclusive as fotos antes da festa. É sobre isso que quero compartilhar neste texto com vocês: o ensaio fotográfico.

Marcamos o ensaio dois meses antes da festa, em um parque da nossa cidade. Conversei com a fotógrafa, falando um pouco sobre o comportamento da nossa filha, e planejamos um ensaio bem natural, com fotos espontâneas, dela brincando e se divertindo no parque; que é um lugar onde ela sempre gostou de estar.

No dia do ensaio, fomos ao salão de beleza, fizemos as unhas e arrumamos o cabelo. Escolhemos dois looks com roupas bonitas e confortáveis, levamos seus acessórios preferidos: óculos de sol, fones de ouvido e celular. Nesse dia, fiquei impressionada com o comportamento da nossa autista: desde o momento em que acordou e saímos para o salão de beleza, ela entendeu a proposta e colaborou, sem reclamações e sem impaciência, mostrando maturidade e real vontade de estar ali. Foi uma grata surpresa.

Foram 50 minutos e 70 fotos, das quais escolhemos as 20 melhores para compor o book. O resultado foi lindo: fotos que representaram seu jeitinho de ser. Foi uma experiência única, um momento em família. Tive a ajuda da minha filha mais velha para escolher o look e a ajuda do meu esposo na hora das fotos, escolhendo os melhores ângulos, sugerindo poses e cuidando dela.

E foi assim que percebi, mais uma vez, que tudo tem o tempo certo para florescer. Não é porque ela não conversa que ela não percebe as coisas; não é porque ela tem atitudes e gostos mais infantis que não esteja crescendo e se tornando uma “mocinha”. Mais uma vez, no convívio com uma filha autista, aprendi, e aprendo, a respeitar o ritmo, as fases e a fazer acontecer, respeitando a sua natureza, o seu jeito e suas escolhas.

Esse ensaio fotográfico foi apenas o começo de uma caminhada cheia de descobertas, aprendizados e emoções. A cada escolha, a cada detalhe respeitado, fomos entendendo que celebrar também é escutar, adaptar e permitir. Nos próximos textos, quero compartilhar como foi transformar esse desejo em realidade, os desafios, as surpresas e as alegrias de viver uma festa de 15 anos possível, significativa e do jeito dela. Porque quando respeitamos o tempo e o ritmo, a comemoração vai muito além da festa; ela se transforma em memória, pertencimento e amor.

Receba outras notícias pelo WhatsApp. Clique aqui e entre no grupo do Além da deficiência.

RECOMENDADAS PARA VOCÊ​

Rolar para cima