Uma nova fase

É, nossa menina floresceu, e partimos para uma nova fase, onde alguns comportamentos (antes permitidos) deverão, a partir de agora, ser moldados e redefinidos. Percebo, na verdade, que essa nova fase já vinha dando sinais antes mesmo dos 15 anos. Noto que ela tem alguns comportamentos típicos de uma adolescente nessa idade. Embora seus gostos ainda sejam infantis, ela curte ficar no seu quarto, de porta fechada, ouvindo suas músicas, cantando, gravando seus vídeos, desenhando ou jogando jogos eletrônicos. Sem contar seu gosto por fast food e Coca-Cola (quase unânime entre os adolescentes que eu conheço). Para completar, ela está no ensino médio e vai à academia que é a rotina de muitos.

Para além do comportamento visível, há um comportamento mais discreto, como: estar mais quieta, demonstrar tristeza e um choro contido em algumas situações; entender que, em alguns locais, não pode cantar ou falar alto, nem ficar perguntando aleatoriamente para as pessoas que encontra: “Qual é o número da sua casa? Qual é a cor da sua casa? Qual é a cor da janela e da porta? Qual o município?”. Tenho conversado muito com ela sobre isso, pois, apesar da maioria das pessoas entender a situação, reconhecer o autismo e tratar com simpatia, algumas vezes esse comportamento é inapropriado e inconveniente, ou, como disse uma vez um profissional da área, “não é socialmente aceito”, principalmente para uma pessoa mais velha.

Porém, já vejo algum progresso. Das últimas vezes que saí com ela, falei: “Vamos a tal lugar fazer tal coisa, não pergunte nada para ninguém, entendeu?”. Ela responde: “Entendi” e, de fato, fica quietinha. Além dessa questão, temos outras a serem trabalhadas, e eu e meu esposo sabemos que, sozinhos, será muito difícil. Estamos procurando ajuda profissional, provavelmente um terapeuta ocupacional (TO) e/ou um psicólogo. Atualmente, a levamos apenas ao psiquiatra, por conta da medicação controlada.

Confesso que, para mim, essa fase assusta e, às vezes, me sinto novamente como quando descobri o autismo: com muitas indagações, dúvidas e medos. O mundo adulto que vemos pela frente, e no qual gostaríamos que ela se desenvolvesse a ponto de ter sua independência, me causa arrepios, e sei que dificilmente estarei presente em todos os momentos para defendê-la.

Considerando sua idade mental, que reconhecemos ser inferior à idade cronológica, fica tão difícil vê-la como adulta, mas sei que é necessário prepará-la para crescer. Nossa maior dificuldade é, e sempre foi, o diálogo. Ela entende comandos, fala o que quer, mas não sabe conversar. Se eu pergunto como foi a escola, ela responde: “Sim”. E continuo tentando sustentar a conversa… “Tudo bem na escola?”, ela responde: “Tudo bem”. Desde sempre ela não conversa, não conta o que aconteceu. Por outro lado, tem muita clareza do que quer e, quando o assunto é programar passeios ou elaborar listas de compras, o faz com muita objetividade, organização e um detalhamento impressionante, chegando muitas vezes a complementar com desenhos. Nessas horas, enxergo o potencial latente presente nela e penso: se ela tem capacidade para fazer isso dessa forma, pode fazer muito.

Quanto às tarefas domésticas, definimos em casa algumas responsabilidades, como guardar a roupa e a louça, tirar a louça da mesa para lavar, arrumar a mesa para café, almoço ou jantar, organizar bolsas e mochilas com suas coisas quando vamos sair, além de toda a higiene pessoal, que ela já pratica há algum tempo. Paralelamente a isso, ela possui total autonomia para preparar seus lanches com organização e criatividade, inclusive utilizando a air fryer para assar seus salgadinhos preferidos.

O momento pede ação, eu reconheço. Precisamos dar o primeiro passo, o pontapé inicial, e começar essa jornada rumo à fase adulta. Sei que alguns traços infantis permanecerão, pois é típico de pessoas com deficiência essa pureza e ingenuidade que, se bem dosadas, podem até ser vistas como algo “fofo”. Nesse contexto, peço sabedoria para conduzir o processo; que possamos encontrar bons profissionais e que, mais uma vez, juntos, possamos nos desenvolver como seres humanos, superando nossos limites e conquistando novos espaços.
E que venha essa nova fase!

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