Ausência injustificável

Foto: Imagem ilustrativa criada por IA.

Nos textos anteriores, falei sobre acolhimento, aceitação, superação, amor, inclusão e crescimento. Temas que, apesar dos desafios, carregam esperança e mostram caminhos possíveis. Porém, no texto de hoje, quero falar sobre um assunto mais denso e, de certa forma, até um pouco triste.

Falarei de famílias que se desfazem após a descoberta do autismo ou de outra deficiência; de pais e mães que simplesmente saem de cena e abandonam seus filhos; de familiares que rejeitam ou não incluem um parente com deficiência. É triste, mas infelizmente acontece. E não são poucos os casos dos quais tive conhecimento ao longo desses anos.

O mais comum é o pai abandonar a família e a mãe assumir sozinha toda a responsabilidade pelo desenvolvimento da criança. Aquilo que poderia, e deveria, ser uma jornada de crescimento e superação compartilhada transforma-se em um peso que ela precisa carregar quase sem apoio. Além de toda a dedicação exigida para auxiliar no desenvolvimento do filho, ela também precisa lidar com a dor do abandono e com a reconstrução de uma vida que não imaginava viver dessa forma. É raro, mas também já conheci situações em que o pai permaneceu e a mãe saiu de cena. A verdade é que a ausência dói independentemente de quem parte.

Quero deixar claro que não estou falando das dificuldades emocionais que muitas famílias enfrentam ao receber um diagnóstico. O choque, o medo, as dúvidas e até o luto pelas expectativas idealizadas fazem parte de um processo humano. O que me refiro aqui é à decisão de desistir, de abandonar, de deixar para outra pessoa toda a responsabilidade por uma vida que também é sua.

Chamei essa atitude de “ausência injustificável” porque, do meu ponto de vista, o que poderia justificá-la? Como um pai ou uma mãe pode abandonar um filho, um bebê, uma criança, simplesmente porque ela apresenta dificuldades de comunicação, aprendizagem ou locomoção? Sei que cada pessoa enxerga o mundo através das próprias lentes e que cada história possui circunstâncias que desconhecemos. Ainda assim, confesso que essa é uma realidade que me custa compreender. Talvez porque eu jamais faria essa escolha.

Acredito que somente quando entendemos que a maternidade e a paternidade são, acima de tudo, entrega e compromisso, conseguimos enfrentar as dificuldades e vencer os desafios. Tornamo-nos os pais que nossos filhos precisam, e não os pais que imaginávamos ser antes de conhecê-los de verdade. Sim, ter um filho autista ou com qualquer outra deficiência não é uma tarefa fácil. Como certa vez disse meu esposo a uma colega de trabalho: “não é um passeio no parque”. Exige dedicação, adaptação, aprendizado constante e, muitas vezes, coragem para enfrentar medos que nunca imaginamos ter.

Também exige que sejamos mais conscientes do nosso papel como facilitadores da vida de um ser humano que possui limitações e necessidades específicas. Em alguns momentos, talvez precisemos abrir mão de confortos, rever planos ou enfrentar a insegurança de não dar conta. Mas acredito que, quando estamos verdadeiramente dispostos a gerar uma vida, devemos estar igualmente dispostos a enfrentar o que for necessário para criá-la e educá-la.

Nenhum filho escolhe nascer com uma deficiência. Nenhum filho escolhe os desafios que enfrentará ao longo da vida. Mas todo filho deveria poder contar com o amor, a presença e o compromisso daqueles que escolheram trazê-lo ao mundo. Por isso, para mim, a ausência continua sendo injustificável. Porque a deficiência pode impor obstáculos, mas o abandono é sempre uma escolha. E toda criança merece mais do que isso: merece pertencer, ser amada e saber que não será deixada para trás justamente por quem deveria caminhar ao seu lado.

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