A rotina de desespero, crises e noites sem dormir começou a dar lugar à esperança para dezenas de famílias em Fernando de Noronha. Mães de crianças com autismo, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento relatam melhorias significativas após o início de tratamentos com canabidiol (CBD), substância derivada da cannabis utilizada para fins medicinais. Entre elas está a professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, que viu o comportamento do filho mudar após três meses de tratamento. Antes, ela enfrentava episódios frequentes de agressividade e agitação, enquanto tentava conciliar sozinha os cuidados com dois filhos e o trabalho.
A sobrecarga emocional também atingiu outras mães da ilha. Rebeca Allen, presidente da associação de mães atípicas de Fernando de Noronha, conta que desenvolveu ansiedade e depressão em meio às dificuldades para cuidar do filho diagnosticado com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial. Após iniciar o uso do canabidiol neste ano, ela afirma ter recuperado a qualidade do sono e o controle da ansiedade. O filho também apresentou avanços, com redução da agressividade e melhor desempenho nas terapias e na escola.
As mudanças são resultado do Projeto Noronha, iniciativa que oferece consultas e acesso gratuito ao tratamento com CBD para moradores do arquipélago. Em apenas dois mutirões realizados neste ano, mais de 120 consultas médicas foram feitas e centenas de frascos de óleo distribuídos. Além do atendimento às crianças neurodivergentes, o programa passou a oferecer suporte psicológico e acompanhamento para mães que enfrentam o desgaste físico e emocional da rotina de cuidados.
O projeto ganhou ainda mais importância diante das dificuldades de acesso à saúde especializada em Fernando de Noronha. A ilha possui apenas uma unidade pública de atendimento, e casos mais complexos exigem deslocamentos de mais de 500 quilômetros até Recife. Relatórios da iniciativa apontam que problemas relacionados à saúde mental lideram a procura por atendimento, com destaque para ansiedade, insônia e depressão, refletindo os impactos do isolamento geográfico e da escassez de serviços especializados.
Especialistas envolvidos na ação afirmam que o canabidiol tem demonstrado potencial para reduzir sintomas como agressividade, agitação, insônia e hipersensibilidade sensorial, comuns em pessoas com autismo. Diferentemente de alguns medicamentos tradicionais, o CBD não costuma provocar sedação intensa, permitindo que crianças e adultos mantenham suas atividades diárias e aproveitem melhor terapias e tratamentos complementares. Enquanto os estudos avançam, famílias da ilha comemoram aquilo que consideram uma transformação na qualidade de vida.







