O grande dia

Conforme prometido no texto anterior, “O tempo certo de florescer”, irei compartilhar com vocês como foi transformar o desejo da festa de 15 anos em um momento significativo para nossa menina autista. O mês escolhido foi março (mês em que ela nasceu), e o dia foi o que estava disponível na casa de festas: quatro dias após seu aniversário.

Optamos por esse local por já conhecermos a organizadora, pois foi onde realizamos a festa de 15 anos da nossa filha mais velha. Outro ponto importante é que a equipe que trabalha na casa já conhece e entende o jeito da nossa menina. O horário inicial seria às 19h, como de costume nas festas de 15 anos, mas optamos por antecipá-lo para as 17h, considerando que haveria menos tempo de espera para o início da festa e que ela terminaria mais cedo, sem interferir no horário de sono.

O vestido foi escolhido por mim e pela irmã mais velha, na cor preferida da aniversariante, e a encantou desde o primeiro contato. Era leve e delicado, combinava com ela. No dia da prova, ela girava o vestido rodado, sorria livremente para o espelho e disse, com seu jeitinho: “Quero esse”.

A cor escolhida foi o amarelo, encontramos um tom suave, que combinou muito com sua pele e seu estilo. Nos cabelos, optei por um penteado leve, meio preso, com cachos e uma pequena rosinha amarela. O calçado foi um tênis branco, e o acessório, um colar dourado com pingente de coração.

A decoração seguiu uma paleta dourada, com detalhes em rosa e amarelo. O bolo, com seis andares, trazia uma grande vela de 15 anos. O cerimonial, simplificado, sem discursos ou valsas e o som ambiente em um volume que não a incomodava atendeu perfeitamente às necessidades dela.

Semanas antes da festa, fiquei imaginando o que poderia ser feito para tornar esse momento especial sem exigir muito dela, mas que, ao mesmo tempo, tivesse significado e beleza para todos os presentes. Para a aniversariante, bastava: soprar a vela, comer e brincar. Mas eu sabia que poderíamos fazer algo marcante.

Escolhemos uma música para a entrada — uma que ela escuta todos os dias e que sempre nos faz lembrar dela. Ela chegou quando todos os convidados já estavam presentes. Entramos, eu e meu esposo, de mãos dadas com ela e vestíamos roupas escuras com detalhes na cor do vestido dela.

Paramos em frente à mesa decorada. Ela observou sua festa, os convidados aplaudiram, ela aplaudiu junto e, em um gesto simples, nos abraçou, como se estivesse agradecendo. Cantamos parabéns, com direito à explosão de confetes; no início, ela se assustou, mas logo percebeu do que se tratava e até gostou. Soprou as velas lindamente e, após os parabéns, fizemos um brinde com refrigerante.

Partimos para as fotos com os convidados…neste momento foi que percebi que o volume da música, um pouco mais alto, a fez buscar rapidamente o conforto de seus fones, e ela saiu correndo para buscá-lo. Algumas fotos foram com fone, outras sem e tudo bem. Todas as pessoas presentes compreendiam e acolhiam a nossa menina.

Para que tudo ocorresse como planejado, fiz um combinado com ela antes de sairmos de casa: 1. entrar com o papai e a mamãe; 2. tirar fotos; 3. cantar parabéns; 4. fazer um brinde; 5. fotos com os convidados; e 6. brincar e comer. Com esse quase “mantra”, seguimos para a festa. Essa sequência a deixou mais tranquila, pois sabia o que iria acontecer. E assim ela chegou: linda, radiante, com um sorriso no rosto (emocionando muitos convidados, que depois vieram me contar).

Após ser liberada das fotos, correu para os brinquedos, especialmente a cama elástica, seu preferido desde sempre. Depois de arrebentar a alça do vestido, trocamos de roupa, coloquei chinelos para deixá-la mais confortável, e então ela aproveitou cada instante: comeu, bebeu e brincou muito. Descobriu o caminho da cozinha e pedia aos garçons aquilo que queria. Sentou-se à mesa dos padrinhos, junto da tia com quem mais convive, e ali viveu sua festa com liberdade.

Ficou até o final, aproveitando cada momento. Na hora de ir embora, percebeu os presentes que havia ganhado. Abriu alguns, encontrou um que chamou sua atenção (um fone de gatinha todo iluminado) conectou ao celular e disse: “Quero ir embora!”. Voltou para casa cansada e feliz.

Para nós, ficou a sensação de dever cumprido e a alegria de proporcionar esse momento para ela e para a família. Valeu cada esforço e cada centavo investido nesse momento único em nossas vidas. Quanto à aniversariante, ao ser indagada se gostou da festa, respondeu: sim… e completou: “Festa agora só em 2027”. E nós rimos.

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