
Após um ano escrevendo sobre a maternidade atípica a partir das minhas próprias vivências, sinto que chegou o momento de ampliar um pouco o olhar. Continuarei compartilhando nossa trajetória, afinal ela faz parte de quem sou, mas também desejo refletir sobre situações, histórias e aprendizados que observo em outras famílias e que, de alguma forma, dialogam com a nossa realidade. Foi justamente uma dessas situações que inspirou o texto de hoje.
Recentemente, fui abordada por uma mãe que me mostrou uma atividade escolar do filho, acompanhada de uma nota baixa. Sabendo que sou professora, ela me pediu que analisasse o trabalho e atribuísse uma nota. Fiquei constrangida no momento, pois não conhecia o contexto da atividade. Expliquei que a avaliação dependia de diversos fatores: os critérios definidos pelo professor, o conteúdo trabalhado em sala, os objetivos da proposta, o processo de aprendizagem do aluno e os instrumentos de avaliação utilizados. Enfim, muitos elementos precisariam ser considerados para chegar a uma nota final.
Ainda assim, ela insistiu: “Mas olha o capricho! A atividade era essa. Veja como ele fez tudo certinho. O professor foi injusto nessa nota”. Durante a conversa, perguntei se o filho contava com o apoio de um segundo professor. Ela respondeu prontamente: “Ele não precisa”! Perguntei então se havia um diagnóstico formal. Ela respondeu que nunca havia buscado uma avaliação, mas que a família sabia que ele era autista. “Mas ele é tão inteligente! Toca vários instrumentos ao mesmo tempo, é uma verdadeira banda de um homem só! — disse ela, abrindo um sorriso orgulhoso”, pontuou.
Em contrapartida, vivenciei outra situação. Em um contexto diferente, uma mãe, ao perceber o baixo desempenho escolar da filha já no final do ano letivo e diante da possibilidade de reprovação, correu desesperadamente em busca de um laudo. Um diagnóstico que pudesse justificar as notas baixas que, pasmem, só foram percebidas quando o ano estava praticamente encerrado.
Foi diante dessas duas situações que me veio à mente o velho ditado popular: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Nem negar um possível diagnóstico, nem diagnosticar aleatoriamente. O equilíbrio se faz necessário. Um laudo não pode ser utilizado como uma bengala para justificar comportamentos inadequados, desinteresse, dificuldades de aprendizagem ou falta de acompanhamento escolar. Da mesma forma, a ausência de um diagnóstico não significa que um aluno não precise de apoio, adaptações ou estratégias diferenciadas para aprender.
É preciso cautela, sabedoria e discernimento para oferecer o suporte adequado a cada situação. Não é negando as dificuldades que tornamos nossos filhos mais típicos. Também não é um diagnóstico, por si só, que resolverá problemas de comportamento ou aprendizagem. O que realmente faz diferença é amar, conhecer, aceitar e compreender nossos filhos em sua individualidade. É reconhecer suas potencialidades, mas também suas limitações. É buscar ajuda quando necessário e oferecer oportunidades para que desenvolvam autonomia e responsabilidade.
Precisamos refletir sobre isso: que filhos queremos entregar para o mundo? Pessoas que acreditam que todas as situações devem ser flexibilizadas em seu favor? Ou indivíduos que compreendem suas próprias dificuldades, mas também aprendem a lidar com elas, desenvolvendo recursos para enfrentar os desafios da vida?
Não podemos projetar nossos medos, expectativas ou frustrações em um diagnóstico. Quem convive com o autismo sabe que o laudo não representa o fim da caminhada. Pelo contrário: muitas vezes ele marca apenas o início de uma longa jornada de autoconhecimento, adaptações, descobertas e crescimento para toda a família. Talvez o maior desafio esteja justamente aí: encontrar o equilíbrio entre acolher as necessidades dos nossos filhos e prepará-los para a vida. Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra.







