
Às vezes, quando uma criança tem uma deficiência, parece que o olhar das pessoas muda. Passamos a enxergar primeiro o diagnóstico, a dificuldade, o que ela ainda não consegue fazer. E, sem perceber, deixamos em segundo plano aquilo que deveria continuar sendo o mais importante: ela é uma criança. Uma criança que quer brincar, correr, fazer bagunça, escolher o brinquedo preferido, ouvir a mesma música muitas vezes, dar risada de coisas que só ela acha engraçadas, descobrir o mundo no seu próprio tempo. Uma criança que pode gostar de bola, de massinha, de água, de histórias, de desenhos, de colo ou simplesmente de ficar ali, observando tudo ao seu redor.
A deficiência pode mudar algumas formas de brincar, de aprender, de se comunicar e de participar. Pode exigir adaptações, recursos, mais tempo, mais apoio. Mas não deveria tirar o direito de viver experiências próprias da infância. Precisamos ter cuidado para não transformar cada momento da criança em uma sessão de terapia. Nem todo brincar precisa ter um objetivo pedagógico. Nem toda atividade precisa ensinar uma habilidade. Às vezes, brincar pode ser apenas brincar. E isso também é desenvolvimento.
Uma criança com deficiência não precisa passar a infância tentando provar o quanto é capaz. Ela precisa ter oportunidades para ser criança, com suas preferências, suas descobertas, seus limites, suas birras, suas gargalhadas e suas pequenas conquistas. Também não precisamos fingir que as dificuldades não existem. Elas existem, e algumas podem ser grandes. Há dias difíceis, crises, frustrações, barreiras e momentos em que a família se sente cansada. Reconhecer isso não diminui a criança. Pelo contrário, é uma forma de enxergá-la por inteiro.
Talvez o nosso maior desafio seja aprender a olhar além daquilo que ela ainda não faz. Perceber a alegria naquele sorriso, a intenção naquele gesto, a curiosidade naquele olhar, a vontade de participar mesmo quando a forma de participação é diferente da nossa. Porque infância não deveria ter um modelo único. A criança com deficiência não precisa de uma infância diminuída, nem de uma infância perfeita. Precisa de uma infância possível, respeitada e cheia de oportunidades para brincar, descobrir, experimentar, errar, tentar novamente e simplesmente viver.
A deficiência faz parte da história daquela criança. Mas não precisa ser toda a história. Antes do diagnóstico, antes dos laudos, antes das terapias e dos objetivos, existe uma criança. E ela continua querendo ser criança.







